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Radicada na cidade de Itu, interior de São Paulo, a banda Templo de Fogo é veterana e velha conhecida na cena local. Em atividade desde os anos 90, a banda reúne uma extensa discografia, com diversos full-lenghts, demo-tapes e EPs já lançados.
Abordando temática cristã e com letras cantadas exclusivamente em português – exceção feita apenas ao EP Judgement (2003) – o Templo de Fogo é daquelas bandas que enriquecem, abrilhantam e, assim, orgulham e agigantam o Heavy Metal nacional.
Em meados deste ano de 2020, a banda deu vida ao seu novo álbum, intitulado Gólgota. Nesse recém lançado material, a banda atingiu o ápice da criatividade e da maturidade musical, fruto de trabalho duro somado à extensa experiência adquirida após mais de duas décadas em atividade.
Em Gólgota, o Templo de Fogo entregou um som pesado, bem produzido e bastante variado, preservando, porém, a essência do Heavy/Power Metal que caracteriza e marca o seu estilo.
A faixa de abertura, atmosférica e, em certos aspectos, soturna, dá início à viagem sonora de Gólgota, deflagrando um clima sombrio que cativa o ouvinte logo nas primeiras notas. Essa sorumbática faixa introdutória é emendada e contraposta, logo em sequência, pela pesada e cadenciada canção Ressuscitou, com seus riffs poderosos e viscerais, empolgando no melhor estilo do Heavy Metal tradicional oitentista (ao qual o ouvinte é prazerosamente remetido, numa agradável viagem nostálgica).
Prosseguindo na mesma linha do Heavy Metal tradicional, mas com um andamento um pouco mais arrastado e lento, o ouvinte é presenteado, em sequência, com a faixa Aos Pés da Cruz, uma verdadeira aula de peso, técnica e melodia, em doses equilibradas.
Aliás, essa mencionada canção – Aos Pés da Cruz – merece um destaque especial: as dobras de guitarras ao final, tão marcantes e tão bem encaixadas, remetem o ouvinte ao melhor estilo do Iron Maiden. A banda, por sinal, repetiu essa técnica – de guitarras gêmeas/dobradas – em outras faixas ao longo do álbum, sempre em doses balanceadas e moderadas (a exemplo da parte final de Dono da Vida), característica que, ao lado de outras tantas qualidades desse álbum (adiante detalhadas), tornou a audição de Gólgota extremamente prazerosa.
Sem perder a essência e o direcionamento que caracterizam o estilo do Templo de Fogo – com fincas no Heavy/Power Metal –, Gólgota é bastante variado. Prova indiscutível dessa versatilidade pode ser conferida na faixa Caminho de Dor. Essa canção, com seu início calmo e atmosférico, desenvolve-se de maneira semelhante a um crescendo, convolando-se numa repentina e intensa explosão sonora. Pesada, densa e com vocais extremamente potentes, Caminho de Dor é marcada por um feeling inexprimível por palavras, tangível apenas pela audição que essa viagem sonora proporciona. Essa faixa é, particularmente, uma das minhas favoritas de Gólgota.
O álbum, como não poderia deixar de ser, também entrega ao ouvinte aquele Power Metal melódico técnico e bem executado, no melhor estilo de bandas como Gamma Ray e Helloween (em sua fase mais pesada), apenas para mencionar algumas referências. Nessa linha, citam-se, especialmente, as excelentes canções Sacrifício e Tua Voz, ambas marcadas pelo ritmo mais veloz (com elogiável destaque aos trabalhos de bateria) e pelos riffs enérgicos, potentes, melodiosos e empolgantes, características típicas do gênero.
O álbum contém, ainda, duas espécies de interlúdios – Sonho Perdido e Pra casa –, que realizam, ao longo da audição, uma ótima comunicação entre as diversas faixas, conferindo unicidade e singularidade ao conjunto da obra.
A precitada faixa Pra Casa, a propósito, antecede a canção derradeira, Eu Voltarei. Essa última faixa se inicia e se desenvolve de forma potente, forte e agressiva, mas sofre uma brusca e repentina ruptura de andamento, encerrando Gólgota de forma obscura, sombria, atmosférica e, até mesmo, "enigmática". Um verdadeiro "apagar de luzes".
Fecham-se, então, as cortinas desse espetáculo sonoro, deixando ao ouvinte um gosto de quero mais.
Gólgota é aquele típico trabalho que se aprecia do começo ao fim sem pular faixas. É, sem exageros, um deleite sonoro inexprimível por palavras de uma singela resenha. O único defeito de Gólgota é que ele acaba.
A banda trabalhou de forma coesa e, como anteriormente destacado, entregou um som variado e agradável, sem, porém, perder a identidade e a direção.
Todos os integrantes são destaques no álbum. O vocalista Moisés Missão, a propósito, possui um vocal limpo, forte e potente. Com um marcante e inconfundível timbre e esbanjando feeling, ele não apenas canta, mas interpreta e incorpora as canções. E, fazendo-o com singulares paixão, emoção e intensidade, dá vida às letras e às músicas.
Ao seu turno (e como já dito e repetido), os trabalhos de guitarra, a cargo de Lucas Gonçalves e de Jica Pelegrino, são surpreendentes, para dizer o mínimo. É inquestionável que a banda atingiu, nesse quesito, o ápice criativo, entregando uma enxurrada de solos e uma saraivada de riffs criativos, fazendo dessa audição uma experiência sonora única, resfolegante e empolgante, do início ao fim.
Os trabalhos de bateria em Gólgota são outro destaque indiscutível. Titulando capacidade técnica surpreendente, o baterista Ronaldo Vicente executou uma performance irrepreensível num álbum que variou entre ritmos lentos, médios e rápidos.
Algumas canções contêm, nelas próprias, quebradas de tempo e variações bruscas de ritmos, o que certamente tornou o trabalho das baterias especialmente dificultoso. Ronaldo Vicente, porém, deu conta do recado com maestria, esbanjando versatilidade e criatividade num álbum evidentemente desafiador.
Ronaldo Vicente detém aquele talento para unir técnica e feeling, rara habilidade que o coloca na categoria dos grandes. Provou isso em Gólgota, como, aliás, já o havia provado, também, nos álbuns anteriores do Templo de Fogo.
Gólgota é um álbum que demonstra, uma vez mais, a força do Heavy Metal brasileiro.
A música pesada nacional – em todas as suas vertentes – é de extrema qualidade, fato notório. E o Templo de Fogo está aí para provar isso: que a música pesada do nosso país está no catálogo das melhores do segmento no mundo. O Brasil, em seus recônditos, é fonte riquíssima de excelentes bandas do gênero, que, portanto, merecem valorização e apoio de nós, os fãs.